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As casas da psicanálise: nove endereços, de Freud a Reich

portaldoinconsciente
24 de ago.
7 min de leitura

A gente estuda esses autores por anos e esquece de uma coisa simples: eles moravam em algum lugar.

Tinham uma porta, uma escada, uma poltrona junto da janela. Recebiam pacientes numa sala que ficava a poucos metros da cozinha de casa. E quando a história virou contra eles, tiveram que fazer as malas como qualquer pessoa faria.

Abaixo estão nove endereços reais, em cinco países, na ordem de uma viagem: Viena, Londres, Zurique, Paris e o interior do Maine. Cada um traz o endereço completo, o link do mapa e o link do museu, quando existe.

01 · Berggasse 19 — Viena, Áustria

Sigmund Freud · 1891–1938 · hoje é museu

Endereço: Berggasse 19, 1090 Wien, Áustria

Foram quarenta e sete anos no mesmo endereço. Freud recebeu pacientes ali, escreveu ali a maior parte da obra, e foi ali que a psicanálise tomou a forma pela qual a conhecemos hoje. Em 1938, a anexação da Áustria pela Alemanha nazista obrigou a família a fugir. Ele tinha 82 anos e já estava gravemente doente.

Os cômodos históricos estão quase vazios — e isso é uma decisão, não um descuido. Na reforma do museu, escolheram não reconstruir o mobiliário que se perdeu. O que se visita hoje é a ausência.
  • O museu foi inaugurado em 1971 — e Anna Freud voltou a Viena para a abertura.

  • Abriga hoje a maior biblioteca de pesquisa psicanalítica da Europa, com cerca de 35 mil volumes.

02 · 20 Maresfield Gardens — Londres, Inglaterra

Sigmund Freud · 1938–1939 · hoje é museu, com visita virtual

Endereço: 20 Maresfield Gardens, London NW3 5SX, Reino Unido

É a casa do exílio — e a casa onde ele morreu. Ernst Freud, filho de Sigmund e arquiteto, preparou o lugar antes da chegada da família: derrubou a parede entre o gabinete e a biblioteca para recriar a atmosfera do consultório de Viena, instalou um elevador e projetou uma varanda no jardim dos fundos.

Freud passou ali seu último ano, recebeu alguns pacientes e terminou Moisés e o Monoteísmo. Morreu no próprio gabinete, em 23 de setembro de 1939.

O divã famoso não está em Viena. Está em Londres — junto com a biblioteca e quase duas mil antiguidades. O gabinete foi preservado praticamente como estava.
  • O divã foi presente de uma paciente, Madame Benvenisti, em 1890 — quase cinquenta anos antes da casa de Londres.

  • O museu abriu ao público em 1986, por determinação testamentária de Anna Freud.

  • Na fachada há uma placa azul histórica — mas de Anna, não de Sigmund.

03 · O último andar da mesma casa — Londres, Inglaterra

Anna Freud · 1938–1982 · consultório dentro de casa

Endereço: 20 Maresfield Gardens, London NW3 5SX · e a clínica, no 12 Maresfield Gardens

Anna chegou a Londres com os pais em junho de 1938, fugindo da Áustria ocupada. O endereço que deveria ser o exílio virou a casa dela por mais de quarenta anos.

E há um detalhe que interessa a quem estuda psicanálise infantil: ela não apenas morava ali — ela atendia ali. O consultório e o escritório ficavam no último andar. Com o tempo, a sala ao lado virou sala de espera dos pacientes.

  • Em 1951 ela fundou, com Dorothy Burlingham e Helen Ross, uma clínica e um curso de terapia infantil a poucos números dali — e continuou atendendo também em casa.

  • A clínica nasceu de uma operação de guerra: creches que acolheram crianças desalojadas pelos bombardeios em Londres e, ao mesmo tempo, serviram de campo de observação do desenvolvimento infantil.

  • Anna tecia em um tear. Segundo o museu, isso a acalmava e ajudava na concentração — e ela chegava a elaborar mentalmente suas palestras enquanto tecia.

04 · 42 Clifton Hill — Londres, Inglaterra

Melanie Klein · 1935–1953 · casa particular, com placa na fachada

Endereço: 42 Clifton Hill, St John's Wood, London NW8 0QG, Reino Unido

Aqui a história fica quase cinematográfica. Klein também vivia em Londres — e a própria English Heritage chama atenção para o fato de que ela morava não muito longe da casa de sua grande rival teórica, Anna Freud. Duas das mulheres responsáveis pela maior disputa da história da psicanálise infantil estavam, geograficamente, bem perto uma da outra.

E tem mais: o interior desta casa foi reformado por Ernst Freud — o filho arquiteto de Sigmund, irmão de Anna. Foi a primeira encomenda dele na Inglaterra.
  • A placa azul foi erguida em 1985: “Melanie Klein, 1882–1960, psicanalista e pioneira da análise infantil, viveu aqui”.

  • Na inauguração da placa, Hanna Segal descreveu a casa como “um berço de novas gerações de analistas e de novas ideias”.

05 · Seestrasse 228 — Küsnacht, Suíça

Carl Gustav Jung · 1909–1961 · hoje é museu, só com visita guiada

Endereço: Seestrasse 228, 8700 Küsnacht, Suíça

Para Jung, o lugar onde se vive é quase uma extensão da própria teoria. Ele queria morar perto da água desde uma experiência marcante da infância. Em 1907 apareceu a oportunidade do terreno em Küsnacht e o casal construiu a casa — cerca de sete mil metros quadrados à beira do lago de Zurique. Ele viveu ali até morrer, em 1961.

Sobre o portal está escrito: Vocatus atque non vocatus Deus aderit — “chamado ou não chamado, Deus estará presente”.
  • Jung projetou o jardim pessoalmente: pomar em cima, jardim rebaixado, um pavilhão que ele chamava de “meu gabinetezinho à beira do lago” e um cais de pedra onde ancorava o veleiro.

  • No verão, ele atendia no “quarto de jardim”.

  • O museu só abriu ao público em 2018. A biblioteca e o gabinete só podem ser vistos em visita guiada.

06 · A torre de Bollingen — Obersee, Suíça

Carl Gustav Jung · 1923–1961 · propriedade privada, não visitável

Endereço: Bollingen, à beira do Obersee, cantão de St. Gallen, Suíça

Jung comprou o terreno em 1922, logo depois da morte da mãe. No ano seguinte começou a construir uma torre de pedra — e continuou construindo pelo resto da vida. Se Küsnacht era a casa, a família e o consultório, Bollingen era o retiro: introspecção, símbolos, mundo interior.

  • A torre foi feita em cinco tempos: 1923, 1927, 1931, 1935 — e um andar novo em 1955, depois da morte de Emma.

  • À beira do lago há um cubo de pedra que ele mesmo esculpiu em 1950, com inscrições em latim e grego e uma figura encapuzada carregando uma lanterna.

  • A propriedade pertence hoje a um trust familiar e não é aberta ao público.

07 · 87 Chester Square — Londres, Inglaterra

Donald Winnicott · até 1971 · casa particular, nada preservado

Endereço: 87 Chester Square, Belgravia, London SW1, Reino Unido

Winnicott viveu e atendeu numa região elegante de Londres. O endereço aparece nas próprias cartas e trabalhos dele, datados de “87 Chester Square, London, S.W.1.”. A casa ainda existe.

Mas aqui acontece uma coisa diferente de todos os outros endereços desta lista: não sobrou quase nada. Não há foto pública do consultório, não há placa na fachada, e o arquivo pessoal dele não é aberto.

O que sobrou foram rabiscos. Ele pintava à mão os próprios cartões de Natal, todo ano, virando noites. Um deles está guardado num acervo londrino: um traço a carvão sobre papel amarelo, dobrado em forma de cartão, com o endereço escrito à mão — “Greetings! Christmas 1964, New Year 1965, from Winnicott, 87 Chester Sq., London SW1”.

De Freud sobrou a sala inteira, com o divã e duas mil antiguidades. De Winnicott sobraram rabiscos feitos a lápis com crianças — e os rabiscos eram exatamente o método dele.

08 · 5 rue de Lille — Paris, França

Jacques Lacan · 1941–1981 · prédio residencial, com placa na fachada

Endereço: 5 rue de Lille, 75007 Paris, França

Lacan instalou-se ali no início de 1941 e manteve o consultório nesse endereço por praticamente toda a carreira — foi também onde morou até morrer, em 1981. Há uma placa na fachada lembrando sua presença.

O consultório e o seminário nunca foram no mesmo lugar. Ele atendia na rue de Lille, mas ensinava longe dali — primeiro no Hospital Sainte-Anne, depois na École Normale Supérieure e, por fim, na Sorbonne. Os famosos Seminários eram, literalmente, uma travessia de cidade.

09 · Orgonon — Rangeley, Maine, Estados Unidos

Wilhelm Reich · 1942–1957 · hoje é museu, aberto no verão

Endereço: 19 Orgonon Circle, Rangeley, Maine 04970, Estados Unidos

É provavelmente o endereço mais extraordinário desta lista. Depois de deixar a Europa, Reich encontrou na região dos lagos de Rangeley um lugar que considerava adequado para suas pesquisas. Em 1942 comprou uma antiga propriedade rural — campos, florestas e colinas — e deu a ela um nome: Orgonon.

Ali construiu laboratórios e, no fim dos anos 1940, um observatório que reunia pesquisa, biblioteca, gabinete e áreas de observação num mesmo edifício. É o prédio que hoje abriga o museu.

No segundo andar, o escritório e a biblioteca de Reich estão preservados com o mobiliário original.
  • O observatório está registrado como patrimônio histórico nacional nos Estados Unidos.

  • Por determinação do próprio testamento, os arquivos ficaram lacrados por cinquenta anos — só foram abertos a pesquisadores em 2007.

  • Condenado em 1956, com publicações queimadas por ordem judicial, morreu na prisão em 1957. Está enterrado no próprio terreno.

  • Ele começou no círculo psicanalítico de Freud, em Viena. E terminou aqui.

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